#28, Feijoada da Portela

Feijoada
Lá no morro, que beleza
Ninguém chora, não há tristeza
Ninguém sente dissabor

Cartola que nos perdoe o trocadilho infame interferindo na cadência de seu samba, mas foi esse o clima do sábado quando entramos na Central do Brasil rumo ao agitado e pulsante centro de Madureira. O subúrbio está na moda e é claro que tinha que aparecer por aqui, mas esse não foi o único motivo de irmos em busca de uma das feijoadas mais famosas da cidade.

Explicando: Bruno Fiuza, redator gastronômico freelancer, chef e um dos idealizadores do projeto Efêmero, foi convidado para escrever sobre o prato mais típico do Brasil para uma revista de renome internacional – très chic, mobéin. Dentre as opções sugeridas por ele, os caras não titubearam e escolheram a mais pitoresca (gringamente falando): a tradicionalíssima feijoada dentro da quadra da escola de samba.

Feijoada da Portela

Mas, para não percorrer essa jornada de forma solitária, nos juntamos ao chef carioca para dividir com ele esse momento divino (pra bom entendor, um gracejo basta). O trem velho e muito mal cuidado do ramal de Deodoro foi o nosso ponto de partida com destino à quadra da Portela. Então, meu povo, aumenta o som porque isso aqui é samba: venha com a gente descobrir se a feijuca da tia Surica, ao som de Teresa Cristina ao vivo, merece tamanha fama.

Feijoada da Portela

O percurso foi bem tranquilo de se percorrer de trem, e se você tiver sorte pode até pegar um vagão novo, com conforto e ar condicionado. A quadra fica a apenas 10 min da estação de Madureira, mas a rua cheia de movimento – pessoas, lojas, camelôs, sacoleiros – já indicava uma suspeita que a gente temia.

A quadra estava lotada. Lo-ta-da e mal preparada para a quantidade de gente. Não digo nem em relação ao conforto, não estou aqui pedindo lugares sentados pra todos os comensais (palavra nova, estou amando usá-la ;) e garçons circulando com bebida gelada em meio à multidão. A verdade é que sofremos muito para conseguir chegar perto da comida e, a essa altura, já estávamos irritados com o excesso de estresse que passamos. Mas, deixando tudo de ruim de lado, vamos ao prato propriamente dito:

Feijoada da Portela

Feijoada :: r$ 15 + 15
De cara, o preço barato impressiona, mas não se deixe enganar: você só paga 15 reais pela feijoada se estiver dentro da quadra, e para isso você desembolsa mais 15 reais na entrada. Valores explicados, vamos ao sabor. A feijoada deixa a desejar numa questão importante: é bastante provável que falte alguma coisa na hora de receber seu prato. E por alguma coisa, leia-se qualquer coisa – do feijão à farofa. Quando nos servimos, a linguiça fina, a carne que mais desejamos dos pratos alheios, havia acabado.

Por outro lado, a variedade de carnes era bem interessante. Tinha as bonitinhas: carne seca, lombo e paio, e as visualmente horrendas: pé, dobradinha, orelha, rabo etc. Todas elas servidas separadamente e, além disso, feijão, farofa com bacon, couve e arroz. Sentamos num cantinho protegido de uma chuva em potencial (que não veio) e ali mesmo, no chão da quadra, comemos quase que de uma vez só o nosso prato.

Feijoada da Portela

É obvio que a gente se esforça para que fatos negativos externos não influenciem na avaliação da comida, mas dessa vez foi muito difícil separar a crítica da insatisfação. Ficamos mais de 2 horas em pé numa fila que não andava, praticamente sem poder beber – o nosso compromisso com a crítica era sério demais para perder a sobriedade do momento. Coca não tinha, só Pepsi (aí não pode ser) e a cerveja custava r$ 4,5 cada, além da fila agressiva que tínhamos de enfrentar cada vez que a gente ficava com sede.

A feijoada, feita para um batalhão, estava um pouco pesada para o nosso gosto, mas, claro, é quase impossível fazer tanta comida com muita qualidade, alguma coisa se perde no processo. Desculpa, Tia Surica, mas, no caso, não achamos nada muito saboroso; não que estivesse ruim, mas sem dúvida não valeu a espera. ):

A quadra parece mais uma cidade cenográfica de novela das 6. Bonitinha, toda pintada em tons de azul e aparentemente bem preparada pra eventos de samba. Contudo, é visível a falta de estrutura nos dias de feijoada: vimos pilhas e-nor-mes de latas de cerveja e pratos jogados pelo chão, nos canteiros e nos vasos de planta. Uma pena. O esquema via-show de “balde + 10 cervejas” é prático pra quem consome, mas deixa tudo muito mais sujo, porque o gelo derrete, escorre pela quadra e tudo vira um lamaçal.

A parte boa do passeio foi encontrar as simpatissíssimas comandantes da cozinha da Surica, as responsáveis por preparar a feijoada da diretoria, que posaram pra foto com um sorriso de alegrar qualquer mal humorado.

Feijoada da Portela

Depois de gastar r$ 117, achamos que a entrada da Teresa Cristina no palco era a deixa perfeita para pegar o trem e voltar pra casa. Nada contra Teresão, mas ainda procuro em mim a juventude que me faça sair para comer algo tão pesado e depois, assim como quem não quer nada, curtir um samba de raiz com bafo bizarro de feijão. Deixo para a mocidade de Madureira.

O melhor de tudo foi acertar o caminho na volta: a estação mais perto da quadra é a Mercadão de Madureira, antiga Magno, pelo terminal de Belford Roxo, a apenas 8 paradas da Central do Brasil (contra as 14 estações que enfrentamos na ida, pelo ramal de Deodoro).

Saravá!

***

Com ousadia e alegria ao lado dele, o chef aniversariante Bruno Fiuza. Parabéns!

***

Quadra da Portela
Rua Clara Nunes, 81 – Madureira

Tel. 2489.6440

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Essa publicação foi escrita por eduardo blog.rhem e publicada em 26/12/2012 às 16:21. Está arquivada em $ baratinho, Almoço, Ar livre, Tradicional e marcada , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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