#25, CT Brasserie

A ideia de ir a menus degustação de grandes chefs sempre foi um sonho de consumo do pique. A única questão que balançava estas baleias era o preço – tinha que ser uma escolha certeira para valer a pena os muitos reais envolvidos nesse tipo de evento. Fomos uma vez na Roberta Sudbrack e infelizmente não nos apaixonamos; o Felipe Bronze, com suas criações exageradas, nunca chamou nossa atenção (e os amigos que já foram reforçaram a nossa convicção); e o paulista Alex Atala ainda parece um sonho distante com seu menu premiadíssimo a r$400.

Depois de nossa primeira experiência em um menu degustação (de alto nível), passamos um bom tempo aguando por uma nova viagem do tipo. Nas nadanças por essa cidade, um certo francês sempre esteve na nossa top priority list, principalmente pela simpatia visível em seu famoso programa de TV.

O chef em questão é o Claude Troigros, que, com 4 restaurantes no Rio de Janeiro – 2 franceses, 1 italiano e um especializado em cortes de carne – virou a próxima vítima dos nossos ataques. Tal como uma surpresa que surge a olhos desatentos, uma atualização no facebook do chef (sim, a gente segue o cara) foi decisiva: o nosso 25º encontro seria no menu harmonizado do CT Brasserie, um jantar em grande estilo para a comemoração das bodas de prata do blog.

C’est parti? (chique, móbein)

1º prato :: Carpaccio de melancia, arroz croc-croc
1º vinho :: Espumante Veuve de Vernay (Chardonnay)
A mesinha mais afastada da varanda (ou seja, menos no clima do restaurante) deixou uma má impressão inicial – afinal estávamos ali para um grande evento – mas logo descobrimos que não poderíamos começar melhor. Depois de umas torradas finíssimas, foi dada a largada para o serviço de 5 pratos e seus respectivos vinhos. Pra começar, o meu, o seu, o nosso carpaccio de melancia, aquele mesmo que o Claude, tão simpático, preparou ao lado de Paulo Tiefenthaler num dos melhores programas de culinária que esse Brasil já viu.

Lembro que, quando vi o programa no ar, duvidei da capacidade da melancia substituir a carne nossa-de-cada-dia, mas só provando pra entender a mágica que acontece quando se acrescenta à fruta de sabor tão delicado ingredientes que ativam a memória afetiva e confundem os paladares.

Pra acompanhar, um espumante seco e leve abriu a noite – não interferia no sabor da entrada e contribuía para dar um ar festivo ao início do jantar.

2º prato :: Tartin de tomate e pesto
2º vinho :: Pouilly Fuisse Domaine Eloy (Sauvignon)

A sequência da entrada manteve a leveza proposta no menu. A finíssima massa folheada, coberta com molho de tomate e pesto, era crocante e bem fresca – dava pra passar a noite em um coquetel comendo várias mini porções dessa delicinha gorda. Mas, apesar de bem gostosinha, a entrada não trouxe nenhuma grande inovação nem sabores desconhecidos, o que era uma de nossas expectativas para o jantar.

Nessa segunda etapa, o vinho branco foi uma grata surpresa. O francês era seco, levemente frutado e, sem ser metido, um dos melhores vinhos que já bebi. Para não restar dúvida, o sommelier da casa – a fofura em pessoa – passou na nossa mesa e fez um teste com outro vinho branco, da mesma uva, mas fabricado em outra região, na Argentina.

Os dois vinhos foram apresentados como sendo de alta qualidade, mas, na comparação, o francês, mais seco, deixou o argentino muito pra trás. O nosso conterrâneo latino era mais doce e lembrava tanto maracujá que chegava a enjoar. Mas não pensem que nessa mesa estavam sentados enólogos de plantão: toda essa percepção gustativa teve ajuda das explicações do sommelier, que bateu um papão com a gente e nos ajudou a notar essa diferença de sabor. Até porque, se estivéssemos no mercado, provavelmente não teríamos dinheiro coragem de pagar por nenhum dos dois. (;

 

3º prato :: Camarões grelhados na chapa, molho defumado e creme de brócolis
3º vinho :: Cevennes Domaine de Gournier Maurice Barnouin Rose (Syrah)

Mais uma vez o mar nos impressionou e ganhou o destaque do post. Grelhados na chapa, levíssimos, acompanhados de lâminas de alho e – preparem-se para o máximo da finésse – caviar de tapioca hidratado com shoyo. Se não fosse suficiente, o molho defumado dava o golpe final, sabor de fumaça (hein?), inacreditavelmente gostoso. Por baixo de tudo, o creme de brócolis fazia a caminha do prato. Aí estava a diferença que fomos buscar no restaurante do Claude. #OiOiOi #Chorei

Pra acompanhar essa pequena porção do paraíso, o vinho rosé – o meu tipo favorito – manteve muito bem o seu papel de coadjuvante com um sabor leve.

4º prato :: Filet mignon com crosta de gorgonzola e aspargos com jamón
4º vinho :: Chateau Rocher Figeac St Emilion (Merlot)

Já fui mais do time da carne e provavelmente no passado esse prato teria me impressionado mais do que qualquer outro. A combinação é perfeita: a maravilha divina do jamón, a leveza dos aspargos e um bife alto e macio com casquinha de gorgonzola. Tudo muito bem, mas a missão de alcançar o prato anterior era dura e, na minha opinião, injusta. Apesar da alta qualidade, o prato não é nenhuma novidade e por isso mesmo peca na originalidade. Não que estivesse ruim, mas de longe foi o menos interessante da noite.

Não sei se a quantidade de álcool já estava alterando o poder de raciocínio lógico, mas parece que o vinho tinto servido, assim como o prato, não esteve a altura do jantar. O vinho mais robusto da noite não parecia combinar com a proposta leve dos pratos até então.

Sobremesa :: Mousse de coco com sorvete, tuiles de amêndoas e leite condensado
Vinho de sobremesa :: Muscat de Beaumes Venise Domaine Coyeux (Muscat)
Para finalizar, ficamos com uma sobremesa bastante simples e, talvez, um pouco redundante. A mousse de coco era servida com sorvete de… coco. Não me entendam mal, tanto a mousse quanto o sorvete estavam gostosos, mas ficou faltando uma certa profundidade no prato. As texturas e sabores eram parecidos, e a diferença ficava por conta dos flocos de arroz e do biscoitinho. Meu coração apaixonado esperava mais, queria soltar um “que marravilha!”, mas ainda não foi desta vez.

Além disso, não gostamos do vinho de sobremesa. Não sei se por não estarmos acostumados a tomá-lo, ou se ele não era realmente bom, mas achamos doce demais, o que brigava com a sobremesa leve, sem sabores muito agudos.

E o que fica de lição depois de uma noite dessas?

Existem restaurantes incríveis pela cidade, com chefs renomados por trás das portas da cozinha e que, apesar do preço salgado, valem a visita. Este jantar, por fazer parte de um menu especial, foi mais em conta do que o cardápio do dia-a-dia do restaurante. Toda fartura, acompanhada de água, café, chá e direito a repetir qualquer vinho sem o controle chato dos garçons custou a bagatela de r$358,40 para o casal.

Caro? Sem dúvida, mas uma noite como essas não se vê normalmente por aí. O atendimento impecável, bem como parece ser a relação do chef com os seus funcionários; a educação dos garçons, o banheiro finíssimo e o ambiente super francês do restaurante estão incluídos na conta. Só o serviço que, graças a deus, não corresponde ao estilo arrogante dos garçons parisienses nem desatento dos cariocas.

Esse é o Claude Troigros, há 30 anos fazendo milagre com sotaque francês no coração do Rio.

***

Na companhia minha e dela – os que mais importam.

***

CT Brasserie (Fashion Mall)
Estrada da Gávea, 899, 3º andar São Conrado
Tel. 3322.1440

Anúncios
Essa publicação foi escrita por eduardo blog.rhem e publicada em 22/10/2012 às 01:41. Está arquivada em $$$$$ salgado, Internacional, Jantar e marcada , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

Meta a colher:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s